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A SERVIÇO DA SATISFAÇÃO PESSOAL


Novembro 14, 2004  

Arena

Fliperamas, uma das maneiras que o homem contemporâneo encontrou para aliviar a tensão.

Jogos eletrônicos já fazem parte do nosso dia a dia há um bom tempo. Eles estão no computador da empresa que você trabalha, nos celulares, no videogame velho que você tem encostado em casa. Mas apesar disso, fliperamas não costumam ser o tipo de lugar em que qualquer um possa ir. Não estou falando desses fliperamas que ficam dentro de shoppings, esses até a minha mãe freqüentaria. Estou me referindo a lugares mais específicos.

Um exemplo desses lugares é um fliperama aqui de São Paulo, que fica no Centro da Cidade. Apareça por lá no horário de almoço, ou depois das seis. Com certeza você vai encontrar alguns sujeitos engravatados que depois de um dia típico de trabalho estão se divertindo atirando em qualquer coisa que se mexa num daqueles simuladores de tiro, ou estão espancando quem eles encontrarem pela frente, nos jogos de luta.

Você também vai encontrar bandos de garotos barulhentos usando uniforme de escola, office-boys e alguns malacos. Encontrar uma mulher é raro. O fliperama garante a trilha sonora, com o som sintonizado na radio rock do momento, onde a musica mais pedida costuma ser alguma banda cantando umas baixarias sobre mulher. Pra completar o cenário, painéis de futebol e basquete, e um telão sempre pronto pra transmitir um jogo importante.

O cheiro de testosterona se mistura com o de cerveja, refrigerante e suor. É bem pior que o cheiro de um vestiário de futebol, afinal lugares como estádios ou botecos já foram descobertos pelas mulheres. Já os fliperamas continuam território inexplorado.

Imagino que algumas devam ficar com dor de cabeça depois de alguns minutos dentro de um, e saiam sem entender que graça um monte de marmanjo vê em ficar enfurnado lá dentro, cercados por aquele monte de maquinas barulhentas.

Talvez os fliperamas tenham uma outra função além de extravasar a violência reprimida do cotidiano. Talvez eles ensinem algum tipo de lei silenciosa. Tenho um amigo que trabalha num cargo de chefia de uma grande empresa. Numa noite num barzinho, ele me disse que pra conseguir chegar onde está, foi preciso que ele desenvolvesse um tipo de instinto assassino. Ele disse que dentro do ambiente de trabalho muitas vezes não existe espaço para delicadezas, e que se você tiver que atacar, não tem que ser para machucar de leve. Que quando se enfia a faca em alguém, tem que se girar ela por dentro, pra aumentar o estrago. Nessa hora não parecia que eu estava falando com o meu amigo, parecia que eu tinha acabado de encontrar um personagem desses jogos de luta, brincando de ser executivo.

Existe uma velha frase que diz que a crueldade se aprende na infância, e naquele momento ela me pareceu fazer bastante sentido. Mulheres não freqüentam fliperamas, não brincam de policia e bandido, e nem se divertem vendo filmes de Kung fu. Elas também não costumam se dar tão bem quanto homens em ambientes corporativos mais violentos. Talvez esteja faltando pra elas o cursinho preparatório.

posted by André | 10:47 PM


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