Março 29, 2005
Banalizando
Quando se pensa numa cidade como São Paulo, o que vem a cabeça logo de cara são lugares comuns repetidos de forma exaustiva: a terra da garoa, a Avenida Paulista, engravatados apressados, engarrafamentos...
Não admitir a importância desses clichês seria tão pretencioso quanto imaginar que a cidade se encerra em cada um deles, afinal todo cartão postal que se preza esconde um outro lado onde a festa costuma ser muito mais animada, e diga-se de passagem, não tem hora pra terminar.
Poetas e putas, intelectuais e malandros, Cinema Novo e Pornochanchada, Jazz e Jovem Guarda, sociologia e rabos de galo. Diferentes lados da moeda, mas quem se importa? No final da noite todos vão se encontrar no último bar que ficou aberto, e depois da terceira rodada fica difícil distinguir quem é quem.
Em seu disco-manifesto de estréia, a banda Banalizando cozinha essas e muitas outras referências (musicais, visuais e etilicas) no seu caldeirão, e o resultado é um caldo grosso que escorre pelos ouvidos e convida a todos para uma farra daquelas.
Baixo, guitarra e bateria, um power trio clássico, mas espera aí, estamos mesmo falando de rock?
Se comparações servem de alguma coisa, o som dos caras pode ser enquadrado na praia de gente como o Martin, Medeski & Wood, trio inglês do começo dos 90 que está na ativa até hoje com o seu jazz dançante, cada vez mais distante do rótulo acid jazz, ou música de publicitário, como o termo ficou conhecido.
Mas estamos falando de um grupo paulistano por origem e devoção, que vai além da mistura jazz e funk para brincar com os ouvintes e passear por diversos estilos sem se associar a nenhum deles, incorporando elementos de rock, surf music, blues, disco, latinidades e mesmo drum and bass, numa música instrumental fortemente guiada pelo ritmo, com direito a inserções de cuica, flauta, congas e até um trecho de um filme marginal produzido na Boca do Lixo em 1976, num dos momentos chave de um disco que seria a trilha sonora ideal de um filme do Quentin Tarantino rodado no Centro velho de São Paulo.
Outro dia, ouvi numa conversa a banda definir o próprio trabalho como jazz para jovens. Se assim for, pelo menos por enquanto o jazz (e os jovens) estão salvos.
Para ouvir o trabalho dos caras, clique aqui
Ei, o meu rabo de galo acabou. Alguém a fim de mais uma rodada?
posted by André |
1:46 AM
Março 6, 2005
Defeito
Quando entrei na Faculdade me impressionei logo de cara com algo que acontecia e continua acontecendo com uma frequência preocupante, que é a facilidade de se encontrar alguém desacordado, sendo carregado numa maca pra enfermaria. E o engraçado foi perceber como qualquer situação, por mais estranha que seja, passa a ser encarada com naturalidade depois de algum tempo.
No meu caso, alguns meses e muitas pessoas desmaiadas depois, passei a enxergar tudo do mesmo jeito que um analista do mercado de ações vê um monte de números. Afinal de contas, num lugar onde circula uma quantidade tão grande de pessoas todos os dias, nada mas normal do que acabar encontrando pelo caminho alguém que não tenha agüentado a sua cota diária de pressão e literalmente tenha desligado.
No fim somos todos vitimas da correria desenfreada dos tempos modernos, essa é a verdade: trabalhamos muito, dormimos pouco, nos divertimos menos ainda, nos irritamos a toa, nos alimentamos mal e quase não sobra tempo pra sonhar.
Ficamos horas na frente de um computador, queimando nossas retinas, nossos neurônios e nossa paciência. Entramos e saimos o tempo todo de ambientes acarpetados com sistemas de ar condicionado, ou seja, lugares frios, secos e cheios de ácaros.
O resultado dessa mistura é o que alguns pesquisadores andam chamando de doenças de escritório, e os sintomas são estranhamente familiares. Uma leve dor de cabeça que nunca passa, problemas no estômago, na garganta e dificuldades pra dormir, transformando as bolsas de muita gente em farmacias ambulantes, cheias de remédios contra enxaqueca, antiácidos, pastilhas pra garganta e capsulas de ginseng.
Sou um idealista por natureza, e por isso mesmo gosto de pensar que assim como num episódio dos Jetsons, a principal idéia por trás da tecnologia seja construir maquinas que nos poupem do trabalho pesado. Mas de alguma forma a lógica se inverteu, e hoje parece que se trabalha pra chegar no mesmo nivel de produtividade de uma maquina. O problema é que quando uma maquina quebra, você leva na assistência técnica e troca uma peça, pronto. Mas e quando uma pessoa quebra, o que fazer?
A resposta eu não conheço, mas os reflexos disso estão por todos os lados, é só prestar atenção. Gente desmaiando dentro de Faculdades. Discussões sem sentido no meio do trânsito. Munhequeiras e tensores de antebraço se transformando em acessórios fashion. Lesões por esforço repetitivo. Stress.
E se alguém se identificou com alguns dos sintomas apresentados aqui, saiba que eu estou torcendo pra você não ser a próxima engrenagem que vai apresentar defeito. Porque até onde eu saiba, quando se trata de gente, sai bem mais em conta comprar uma peça nova do que consertar uma antiga.
posted by André |
10:32 PM
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midilands@yahoo.com.br
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