Maio 16, 2005
O elogio ao erro
Uma professora de artes com quem estudei no segundo grau tinha uma frase que ela costumava usar sempre que um aluno aparecia pra entregar algum trabalho e já começava se desculpando e explicando que aquela mancha marrom no meio do quadro tinha sido um acidente envolvendo uma xicara de café.
Ela olhava pra cara do sujeito e dizia com a maior naturalidade que se ele não tivesse dito que aquilo tinha sido um acidente ela jamais teria desconfiado, e ainda teria perguntado como ele conseguiu um efeito de cor tão interessante. No fim, ela completava do jeito mais malandro possivel:
"Não é defeito, é efeito".
Essa frase sempre me deixou intrigado, por me fazer pensar sobre a natureza do amor. Porque se apaixonar pelas qualidades de alguém não é tarefa das mais dificeis, mas enxergar os defeitos de uma pessoa como detalhes charmosos é que são elas.
Certa vez conheci uma garota que tinha pequenas marcas na parte superior das coxas, não era nada evidente, mas o bastante pra deixar a menina insegura ao tirar a roupa na frente de um cara pela primeira vez. Isso até ela descobrir por acaso que aquela tira preta no final das meias sete oitavos coincidia com o lugar onde ficavam as suas marcas. Resultado, as meias sete oitavos se tornaram a sua marca registrada, e ela passou a se comportar de uma forma muito mais segura.
O que me leva a pensar sobre o punk rock. Porque analisando o que eu escrevi até agora, parece claro que antes de existir uma estética punk, um manifesto punk ou coisa que o valha, existia um bando de moleques com instrumentos ruins e que não sabiam tocar direito. Só que ao invés de ficarem choramingando, eles simplesmente sairam pra tocar por aí e se divertir com o que já sabiam, transformando o que poderia ser entendido como uma falha num tipo de opção estética.
Talvez uma das armadilhas em que todo mundo acabe caindo de vez em quando seja o excesso de planejamento, de elaboração. Na vontade de se aproximar da perfeição se esquece que muitas vezes a graça das coisas, o que faz com que elas se tornem especiais, esteja justamente nos detalhes charmosos, na falha, no defeito, no contratempo.
Máquinas não erram, seres humanos sim. E é a capacidade de errar que nos torna melhores.
(e muito mais interessantes também)
posted by André |
12:54 AM
(e contrariando as expectativas daqueles que acharam que este Blog tinha ido desta pra melhor...)
A Música da Noite
AUTORAMAS - Eu não morri
Eu não morri, nnnnnão morri, eu juro pra vocês que eu não morri
Eu não morri, nnnnnão morri, se eu tivesse morrido não estaria aqui
Foi a melhor coisa que já me aconteceu
Foi a maior emoção que eu já conheci
E é tão bom poder estar aqui pra contar
Por essa eu não esperava, eu não morri
Eu não morri, nnnnnão morri, eu juro pra vocês que eu não morri
Eu não morri, nnnnnão morri, se eu tivesse morrido não estaria aqui
Quando alguém tem um sonho e o torna real
Uma idéia na cabeça e a sorte lhe sorri
Eu não posso acreditar que eu consegui
Eu não imaginava, eu não morri
e é um prazer poder estar aqui
isso é tudo o que eu sempre quis
eu não morri
posted by André |
12:40 AM
|